A gente lê: Terra Sonâmbula, de Mia Couto

A gente lê: Terra Sonâmbula, de Mia Couto

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Terra Sonâmbula é o primeiro romance do escritor moçambicano Mia Couto -  antes disso ele havia lançado apenas coletâneas de contos ou crônicas. A história foi escrita durante e sobre a guerra civil que assolou Moçambique entre 1976 e 1992 (a publicação do livro se dá no último ano do conflito).

Portanto, antes de falar sobre a estória, vale retomar um pouco a história.

O contexto histórico de Terra Sonâmbula

De 1965 a 1975, Moçambique lutou por sua independência após mais de 400 anos como colônia portuguesa. Quando conquistada a autonomia, dois grupos locais passaram a brigar pelo poder: o FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) - de orientação marxista - e o RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana). Enquanto o primeiro tinha a presidência e a influência nas áreas urbanas, o segundo dominava a região mais rural. Atrocidades são atribuídas a ambos.

Você pode saber mais sobre a história de Moçambique até mesmo no Wikipedia.

Resumo de Terra Sonâmbula

A trama começa com o idoso Tahir e o menino Muidinga caminhando sem rumo numa estrada rural devastada. Eles tinham acabado de deixar um campo de refugiados e acharam que teriam mais chances de sobreviver aos humores dos grupos armados numa paisagem mais inóspita.

Logo nas primeiras páginas, os personagens encontram um ônibus queimado cheio de corpos carbonizados. Do lado de fora do veículo, jaz um defunto baleado junto de uma mala contendo um diário. É aí que Muindinga faz uma descoberta crucial: ele pode ler! 

Terra Sonâmbula, portanto, é composto pela alternância de duas narrativas: 

Narrativa 1. Tahir e Muindinga

Com o passar das páginas, saberemos que Tahir encontrou Muindinga semi-morto e o salvou. No entanto, Muindinga havia perdido a memória ao 'renascer' e vai querer resgatar a própria história a qualquer custo. Há análises que dizem que o garoto é uma metonímia do próprio Moçambique lutando para achar suas raízes.

Órfão, o menino faz constantes tentativas de dar uma função paterna a Tahir. Este é reticente mas, com o anoitecer, sempre se aproximará de Muindinga, pedindo que ele continue a ler em voz alta os cadernos encontrados na mala. O momento da leitura é um conforto e uma fuga da realidade. 

Narrativa 2. Os cadernos de Kindzu

Se a trama de Tahir e Muindinga se desenrola já num cenário de fim de guerra, os diários de Kindzu vão mostrar como o conflito foi se formando. Não, não existe nada de muito jornalístico no relato, mas é pela desumanização dos personagens que vamos percebendo que algo de errado está acontecendo.

Habitante de um pequeno vilarejo, Kindzu tinha uma vida OK, mas o conflito civil chega para desgraçar sua família. Depois de muitas perdas, ele larga tudo dizendo que quer se tornar um naparama (guerreiros que lutavam contra os grupos armados), mas acho que isso era apenas uma desculpa: Kindzu queria mesmo é dar o fora. Só que parece que deixar a própria casa não é um ato bem visto pelos moçambicanos. A culpa faz com que o homem passe a ser assombrado pelo fantasma do pai.

Durante sua trajetória, Kindzu encontra diversos personagens e eventos fantásticos (por isso, às vezes podem parecer sem noção) que sempre nos deixará a dúvida se aquela cena é sonho, superstição ou realidade.

Terra Sonâmbula é um livro difícil?

Antes de escrever este post, dei uma procurada em impressões sobre o livro e encontrei pessoas dizendo que tiveram dificuldades para ler.

Acho que o incômodo pode ser causado essencialmente pela linguagem de Mia Couto. Ele gosta de inventar palavras à Guimarães Rosa (sim, o autor tem muita influência da literatura brasileira) e escreve coisas como "convindançante", "deslembrar" e "pensageiro". Também vi por aí que o escritor gosta de 'africanizar' o português, colocando no idioma oficial expressões faladas pelo povo. Portanto, grave na memória que no final da edição de Terra Sonâmbula tem um glossário salvador.

De qualquer maneira, não se desespere! Há um estranhamento inicial, mas com o passar das páginas dá para se acostumar tranquilamente. 

Ah, Terra Sonâmbula virou filme em 2007 graças a uma co-produção de Portugal e Moçambique. Eu ainda não vi, mas está disponível no YouTube.

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