Carta em que Mário de Andrade comenta homossexualidade agora é do público

Carta em que Mário de Andrade comenta homossexualidade agora é do público

Desde sempre, há boatos de que Mário de Andrade era gay. E aí que uma carta supostamente bombástica do escritor ao também genial Manuel Bandeira vinha sendo mantida lacrada na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), no Rio de Janeiro. Pois bem, a partir deste quinta-feira (18/6), a Lei de Acesso à Informação tornou o documento público depois de um processo pedido pela revista Época.

No texto escrito em 7 de abril de 1928, Mário de Andrade falq sobre a pressão em assumir a "tão falada (pelos outros) homossexualidade", mas não confirma e nem desmente o fato. 

Confira alguns trechos:

Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria pra nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre a minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Em nada. Valia de alguma coisa eu mostrar o muito de exagero nessas contínuas conversas sociais? Não adiantava nada pra você que não é indivíduo de intrigas sociais. Pra você me defender dos outros? Não adiantava nada pra mim porque em toda vida tem duas vidas, a social e a particular, na particular isso só interessa a mim e na social você não conseguia evitar a socialisão absolutamente desprezível duma verdade inicial. Quanto a mim pessoalmente, num caso tão decisivo pra minha vida particular como isso é, creio que você está seguro que um indivíduo estudioso e observador como eu há de tê-lo bem catalogado e especificado, há de ter tudo normalizado em si, si é que posso me servir de “normalizar” neste caso. (...)

 

Mas si agora toco nesse assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão) e si saio com alguém é porque esse alguém me convida, si toco no assunto é porque se poderia tirar dele um argumento pra explicar minhas amizades platônicas, só minhas. Ah, Manu, disso só eu mesmo posso falar, e me deixe ao menos pra você, com quem, apesar das delicadezas da nossa amizade, sou duma sinceridade absoluta, me deixe afirmar que não tenho nenhum sequestro não. Os sequestros num casos como este onde o físico que é burro e nunca se esconde entra em linha de conta como argumento decisivo, os sequestros são impossíveis."

Certa vez, Manuel Bandeira divulgou a carta, mas suprimiu ou censurou trechos que poderiam ter causado polêmica. Segundo a revista Época, existe uma vontade da família de Mário em abafar o assunto.

Mas - você deve estar pensando - o que muda a orientação sexual do escritor? Na sua vida, nada. Mas acho ser um importante viés para estudiosos e até mesmo leitores de Mário de Andrade, que podem passar a ler suas obras com maior grau de empatia.

A carta pode ser consultada por qualquer mortal, bastando enviar um pedido para o e-mail [email protected]

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