Nos 20 anos da morte de Mario Quintana, confira uma "entrevista" especial com o poeta

Nos 20 anos da morte de Mario Quintana, confira uma "entrevista" especial com o poeta

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Nesta segunda-feira (5/5), a morte do poeta Mario Quintana completou 20 anos. Daí que foi minha querida amiga Karina Sérgio Gomes quem me alertou para a efeméride. E daí que decidi utilizar um texto que a própria Karina - que sabe muito mais sobre o autor do que eu - havia publicado em seu blog Artefato.K  .

Essa gênia decidiu entrevistar o escritor em 2008. Só que, como vocês podem ter percebido, ele já estava morto fazia um tempo. E como Karina ainda não manja de mesa branca, ela simplesmente foi atrás das respostas às suas perguntas baseada nas declarações e poemas que Quintana deixou por aí.

Olha só o resultado:

artefato.k: O que lhe estimula a escrever?
Mario Quintana: Duas coisas ativam a minha poesia: a poluição sonora das cidades e o silêncio da cidade pequena.

a.k: O que é um livro bom?
MQ: Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes
Interrompemos a leitura para seguir – até onde?

a.k: Quem são bons leitores?
MQ: O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

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a.k: Eu sou daquelas que adora autógrafos e dedicatórias de amigos na primeira página. Qual foi o autógrafo dado, ou a dedicatória recebida, que o senhor mais gostou?
MQ: Uma menininha me perguntou: “O senhor pode me botar uma dedicação neste livro?”. Escrevi, então, “Para Helena Maria, com toda a minha dedicação”.

a.k: Clarice Lispector nunca relia suas obras depois de prontas, pois ela dizia que toda vez que relia queria mudar alguma coisinha. O senhor costuma reler o que escreve?
MQ: Nunca me releio… Tenho medo enorme de me influenciar.

a.k: Todo artista odeia jornalista metido a crítico. Como o senhor recebe as críticas feitas por esses?
MQ: Há críticos que, em vez de julgarem pelo
Que sou, julgam-me pelo que não sou.
É como quem olhasse um pessegueiro e
Dissesse: “Mas isso não é um trator?”

a.k: E se pudesse mandar um recado para esses maus críticos, ou aos que recusaram a sua indicação para a ABL, qual seria?
MQ: Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

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a.k: O senhor sabe o que o público em geral diz sobre a sua poesia?
MQ: “É bonito mas é triste” – frase que ainda se ouve da parte de senhoras que ainda leem.
Não sei o que tem belo (não o “bonito”) a ver com triste ou o alegre – conceitos aliás tão relativos…
A beleza – que está acima dessas outras coisas, embora possa incluí-las –, a beleza não comporta adjetivos.

a.k: O senhor costuma atender encomenda de poemas?
MQ: Ah, essa gente que me encomenda
Um poema
Como tema
Como eu vou saber, pobre arqueólogo do futuro,
O que inquietamente procuro
Em minhas escavações do ar?

a.k: Poderia pedir para o senhor escrever um poema agora?
MQ: Impossível fazer um poema
Neste momento.
Não, minha filha, eu não sou a música
– sou o instrumento.

a.k: E é fácil para esse instrumento compor uma melodia?
MQ: Se nunca nasceste de ti mesmo, dolorosamente,
na concepção de um poema… estás enganado:
para os poetas não existe parto sem dor.

a.k: Tem alguma dica para novos poetas?
MQ: Se alguém nota que estás escrevendo bem,
Toma cuidado: é o caso de desconfiares…
O crime perfeito não deixa vestígios.

a.k: Dizem por aí que o senhor é tímido. Concorda com isso?
MQ: Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?

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a.k: Quem é, então, Mario Quintana?
MQ: Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!

a.k: O senhor pode mandar um recadinho para uma amiga que adora o seu poema “Bilhete”?
MQ:
Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda a frio o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil receio…

a.k: E para os paulistas que estão em casa nesse dia de frio e chuva?
MQ: Um dia de chuva é bom para comprar livros de poemas… quem perguntar por que, de nada lhe adianta comparar um livro de poemas.

Clique aqui e veja mais sobre o trabalho da grande Karina que bolou essa entrevista. 

Já a gente do Shereland, em agradecimento por essa contribuição valiosa, publicamos aqui o poema de Mario Quintana favorito de Karina S2

Emergência
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

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3 comentários

Patricia Fernandes de Souza 6 de maio de 2014 às 17:24

Muito bacana!!! <br />Ele é maravilhoso!!!

Rafael 7 de maio de 2014 às 20:01

Super criativa essa entrevista. <br />Imagino que tenha dado um trabalhão, mas ficou bem legal :)

Luiz Bezerra de Oliveira 16 de fevereiro de 2018 às 12:45

Bom dia, <br />Muito bom, excelente a entrevista. Este é o Mário Quintana que me cativou. Luiz Bezerra